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PF identifica doleiro que ajudou o PCC transportar toneladas de cocaína para a Europa

Operação Mafiusi detectou cifras milionárias movimentadas pelo Concierge do PCC por meio do dólar-cabo ao mesmo tempo que Operação Tacitus surpreendeu uma velha conhecida da Lava Jato

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Foto do author Marcelo Godoy
Atualização:

Uma das principais revelações do novo delator do Primeiro Comando da Capital, o empresário Marco José de Oliveira foi o papel que o doleiro Tharek Mourad Mourad teria nos negócios de Willian Barile Agati, apontado como o Concierge do PCC. Após ter a delação homologada, Oliveira viu suas revelações confirmadas, segundo a Polícia Federal, pela análise das movimentações bancárias e pelas mensagens criptografadas de Agati, o dono de um império que movimentou R$ 2 bilhões registradas.

Transcrições de mensagens trocadas entre Willian Agati e o doleiro Tharek Mourad encontradas pela Polícia Federal durante a investigação da Operação Mafiusi Foto: Reprodução / Estadão

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A suposta participação de Mourad no esquema criminoso é tratada em 20 páginas do relatório de 502 páginas da Operação Mafiusi, deflagrada em 10 de dezembro de 2024. “Foram identificadas diversas transações financeiras com características típicas de lavagem de dinheiro”, escreveu o delegado Eduardo Verza, do Grupo especial de Investigações Sensíveis (GISE) do Paraná, da Polícia Federal.

A reportagem não conseguiu localizar a defesa de Mourad. A defesa das Agati alega inocência e contesta no processo a legalidade das provas. Em seu relatório, o delegado afirma que Mourad foi o destinatário de transferências feitas pela conta bancária da empresa Burj Motors e de Agati que somaram R$ 890 mil. A Burj é uma das oito empresas que estão registradas em nome do Concierge do PCC.

A autoridade policial, porém, logo alertou para o que considerou para a aparência enganosa dos dados obtidos por meio da quebra do sigilo bancário dos acusados. “Trata-se de uma quantia irrisória se comparada à verdadeira movimentação financeira de ambos, mas esta não aparece nos dados bancários em razão de ocorrer de forma ilícita e paralela ao sistema financeiro”, afirmou Verza.

Mourad, segundo ele, era o doleiro responsável por promover os pagamentos aos demais integrantes da Organização Criminosa pela exportação das drogas, viabilizando tanto a entrega quanto o recebimento de dinheiro em espécie, notadamente por meio de operação “dólar-cabo”. Sócio de Agati em uma empresa de factoring, Mourad seria considerado um “doleiro de relevância no submundo do crime”.

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Transcrições de conversa entre Agati e Mourad a respeito de entrega de euros em Roma; para a PF, doleiro ajudava a movimentar dinheiro do tráfico Foto: Reprodução / Estadão

Os indícios do papel de Mourad teriam sido reforçados depois quer a PF recebeu cópias das mensagens trocadas entre os acusados no sistema Sky ECC. Ali ficaram registradas operações em dólar e em euro. Para movimentar as cifras milionárias do tráfico de toneladas de cocaína, os acusados utilizam principalmente, “tokens”.

O delegado assim explicou o esquema: “O contratante entrega uma nota de R$ 2 com a numeração marcada para o recebedor (operacional/ exportador), que, por sua vez, segue para um doleiro. Este então envia uma fotografia da numeração da nota (“token”) para o pagador (fornecedor/ contratante) confirmar a identidade do recebedor e, então, efetua-se o pagamento em dinheiro em espécie".

No sistema Sky ECC o doleiro usava o codinome Primo e Agati, Boxeador e Senna. Eles conversaram no chat “IUVFOU:57”, que, de acordo com a polícia, retratava um grupo composto inicialmente Agati, Edmílson de Meneses, o Grilo e outros usuários com os codinomes Ávila e Teflon, que repassavam valores para Agati e Grilo por remessas de cocaina enviadas ao exterior.

Em uma das conversas, Mourad saúda o grupo e comenta que ia se organizar para receber € 500 mil. Agati lhe diz que poderia receber em Roterdã ou em Amsterdã, ambas na Holanda. “O principal assunto tratado no chat envolvia o acerto financeiro entre os interlocutores referente a duas remessas de cocaína ao exterior que totalizavam 470 kg”, afirmou o delegado. Ávila conta que foi cobrado uma taxa de 15% pelo primeiro embarque da droga. No segundo, a taxa subiu para 20%.

Os federais conseguiram recuperar as mensagens do chat em que Mourad foi colocado por Agati; eles usavam codinomes Senna (Agati) e Primo (Mourad) Foto: Reprodução / Estadão

Para o delegado, “a relevância de Tharek (Mourad) como ‘doleiro’ do crime organizado fica bem evidente quando comenta que, caso ‘Avila’ não consiga realizar a transação desse valor, ele seguirá adiante com outro cliente que aguarda na fila”. Isso demonstraria que o investigado prestaria serviços a diversas pessoas e grupos criminosos, “apresentando uma significativa capacidade de movimentação de recursos, tanto no Brasil quanto no exterior.”

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A PF teria detectado operações de Mourad no sistema “dólar-cabo em praças como Amsterdã, Antuérpia, Bruxelas, Madrid, Milão e Roma”. Em uma das oportunidades, ele envia um token a Agati para o resgate de R$ 250 mil, no endereço Via Conte Verde, em Roma. No dia 28 de novembro de 2020, o investigado teria cuidado de outra remessa, de € 500 mil em Roma, já descontado desse valor uma taxa de 14,5%, referente à prestação de seus serviços de “doleiro”.

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Mourad se junta a outro caso em que a Polícia Federal encontrou traços da suposta relação de outra personagem conhecida nessa ramo, a doleira Nelma Kodama, com um acusado de integrar o PCC. Trata-se do empresário Robinson Granger de Moura, o Molly, que é um dos alvos da Operação Tacitus, deflagrada em 17 de dezembro de 2024.

A ação mirou a corrupção policial denunciada por outro delator do PCC, o corretor Antônio Vinicius Lopes Gritzbach. Cinco policiais civis de São Paulo, dois empresários e um advogado foram presos. Gritzbach foi assassinado no aeroporto de Guarulhos, em 8 de novembro de 2024. Três policiais militares que teriam agido a mando de um traficante de drogas do PCC, foram presos como os autores do crime. O nome de Kodama aparecia nos contatos de Molly. Os federais agora investigam o que ligaria os dois personagens.

COM A PALAVRA, O CRIMINALISTA EDUARDO MAURÍCIO, QUE DEFENDE WILLIAN BARILE AGATI

“Willian Barile Agati é um empresário idôneo e legítimo, primário e de bons antecedentes, pai de família, que atua em diversos ramos de negócios lícitos, nacionais e internacionais, sempre com ética e seguindo as Leis vigentes e os bons costumes.

Willian Agati é inocente e isso ficará provado ao final do processo. Agora a defesa vai impetrar habeas corpus perante o Superior Tribunal de Justiça requerendo a revogação da sua prisão preventiva, que é ilegal e abusiva e lhe causa evidente constrangimento ilegal, já que se colocou à disposição da Polícia por livre e espontânea vontade, a fim de colaborar com a justiça na busca da verdade real dos fatos, por não estarem preenchidos os requisitos mínimos e por não existir justa causa para a manutenção da prisão preventiva.

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Além disso, importante frisar que Willian não é autor de nenhum crime. A investigação afirma ser ele autor de delitos com base em ilações sem qualquer fundamento, baseadas em conversas telefônicas no telefone criptografado SKY ECC, prova manipulada e nula de pleno direito, que fere a cadeia de custódia da prova, lei de interceptação telefônica e normas e princípios constitucionais, sendo certo que Willian nunca utilizou esse tipo de telefone.”