O músico Fabiano Leitão, que tocou a canção “Mulher brasileira” durante a posse da ministra Gleisi Hoffmann na Secretaria de Relações Institucionais (SRI), na segunda-feira, 10, foi detido em 2021 por tentar impedir um desfile militar no governo Bolsonaro. Na ocasião, o militante conhecido como “tromPetista” tocou “olê, olá, Lula, Lula” na pista em que passavam os blindados militares em frente ao Palácio do Planalto. O evento aconteceu horas antes de a Câmara votar a proposta do voto impresso, defendida pela gestão bolsonarista.
Leitão é uma figura conhecida da militância de esquerda. Fazia serenatas ao presidente Lula (PT) durante a prisão do então ex-presidente em Curitiba, em 2018. Em 2023, participou da posse do petista no atual mandato. Quando o PT não estava no comando do governo, “tromPetista” tocava a música “olê, olá, Lula, Lula” em frente aos palácios presidenciais e ao Supremo Tribunal Federal (STF), que na época julgava o processo contra Lula na Operação Lava Jato.
Na segunda-feira, 10, Leitão executou no Planalto a música “Mulher brasileira”, de Benito di Paula. A canção foi escolhida por funcionários do PT em um grupo do WhatsApp e pegou Gleisi Hoffmann de surpresa.

“Os funcionários do PT escolheram essa música como uma homenagem à biografia da presidente Gleisi. Eu só fui o executor da tarefa. Em cada nota tinha o carinho dos funcionários”, disse Leitão à Coluna do Estadão. O ato foi combinado com o cerimonial do Planalto, mas a ministra não foi avisada. Leitão tocou a canção depois que ela assinou o termo de posse e começaria a discursar.
“A música ‘Mulher brasileira’ representa Gleisi como uma mulher petista, aguerrida, que merece o espaço que ocupa hoje, ajudando o presidente. Nos oito anos à frente do partido, Gleisi sempre tratou todos os funcionários muito bem”, completou o músico.
Desfile militar foi lido como ameaça do governo Bolsonaro
Em 10 de agosto de 2021, Leitão entrou na pista onde desfilavam os veículos militares, em frente ao Planalto, durante um evento da Marinha. O músico foi imobilizado por três policiais militares, recebeu spray de pimenta e, depois de ser levado a uma delegacia na capital federal, foi liberado. No tumulto, Leitão teve o trompete quebrado. Amigos organizaram, então, uma vaquinha para que ele comprasse um novo instrumento. Apesar do prejuízo material, o militante comemorou o episódio, por ter atrasado o evento militar no governo Bolsonaro.
Em um ato inédito, a Marinha fez um ato militar para entregar ao então presidente Jair Bolsonaro um convite para um treinamento da Força em Formosa (GO), a 80 quilômetros da capital federal, que acontecia há três décadas. O comandante da Força na época, Almir Garnier Santos, alegou uma “coincidência de datas”.
Os chefes dos Poderes Legislativo e Judiciário, Rodrigo Pacheco e Luiz Fux, não compareceram à cerimônia. Bolsonaro assistiu ao desfile na rampa do Planalto, ao lado de ministros e comandantes militares.
Raro fora do Sete de Setembro, o desfile de veículos das Forças Armadas em Brasília foi lido por autoridades na época como uma ameaça do governo Bolsonaro ao Congresso. No mesmo dia da parada militar, a Câmara votaria a proposta de voto impresso, apoiada pelos bolsonaristas.
O então presidente do Congresso, Rodrigo Pacheco, afirmou, após o evento militar: “Para cada fato que possa constituir algum tipo de ameaça, ou de risco, ou de colocação em dúvida das nossas balizas democráticas do Brasil, sempre haverá pronta reação do Senado e do Congresso Nacional para afirmar aquilo que temos de mais sagrado, que é o ambiente propício para o progresso e para a ordem do Brasil, que é o ambiente do Estado Democrático de Direito”.