Faz só sete meses que os brasileiros tiveram de escolher entre Luiz Inácio Lula da Silva e Jair Bolsonaro para comandar o País e mais uma vez a polarização entre esquerda e direita representadas pelo atual e pelo ex-presidente já define os rumos da eleição para a Prefeitura de São Paulo no próximo ano. Com a pré-candidatura do deputado federal Guilherme Boulos (PSOL-SP) consolidada, a pergunta que se faz na capital é a de quem será o nome do bolsonarismo nas urnas.
A desistência anunciada do também deputado federal Ricardo Salles (PL-SP) abriu caminho para que Bolsonaro e seu partido, o PL, apoiem a reeleição do atual prefeito, Ricardo Nunes (MDB). O martelo, porém, ainda não foi batido pelo presidente da sigla, Valdemar Costa Neto. Dono das maiores fatias dos fundos partidário e eleitoral em 2024, o dirigente abriu as portas da legenda a Nunes e, ao mesmo tempo, passou a avaliar a aceitação de outro nome, o do senador Marcos Pontes, já filiado ao partido.
Semanalmente, o Estadão vai mostrar como está o “esquenta” na corrida pelas principais prefeituras do Estado de São Paulo. A primeira delas é a capital, e administrar a maior e mais rica cidade do País, com orçamento previsto de R$ 107,3 bilhões para 2024, é trampolim político com projeção nacional. Foi assim com Gilberto Kassab, que criou o PSD durante seu segundo mandato; com Fernando Haddad (PT), que disputou a Presidência dois anos depois de deixar o cargo; e, mais recentemente, com João Doria, que depois virou governador e tentou, sem sucesso, lançar-se ao Palácio do Planalto.
No campo das especulações, Tabata Amaral (PSB-SP) também está nessa fila. Ela trabalha nos bastidores para angariar apoio. Em segundo mandato na Câmara, a parlamentar projeta desafios agora no Executivo, mas, para isso, precisará convencer o próprio partido de que já é hora. Dona da Vice-Presidência, com Geraldo Alckmin, e de três ministérios, a sigla ocupa espaço fundamental na base de Lula, que, por sua vez, apoia Boulos na capital.
Se o PSB não quiser lançá-la, Tabata ainda tem outra opção: filiar-se ao PSDB presidido pelo amigo Eduardo Leite. Com planos de concorrer à Presidência em 2026, o novo presidente nacional dos tucanos busca um palanque e, claro, um aliado na maior cidade do País.
Oficialmente, PL, PSDB e os partidos do Centrão, como Republicanos e PP, seguem na aliança de Nunes, que vai tentar a reeleição depois de assumir o cargo em definitivo com a morte de Bruno Covas (PSDB), em maio de 2021. O prefeito tem uma base ampla na Câmara Municipal e apoio dos dirigentes locais, mas ainda busca o aval dos caciques partidários, que têm dúvidas sobre a viabilidade de seu nome.
Com mais da metade do mandato cumprido, o ex-vereador ainda não conseguiu tirar do papel algumas de suas principais promessas na área de mobilidade (como corredores de ônibus), construção de novos Centros Educacionais Unificados (CEUs) e redução do número de mortos no trânsito da capital – compromisso modificado, sob críticas, durante a atualização de seu Plano de Metas.
E Nunes ainda terá de enfrentar o histórico das eleições em São Paulo que, se mantido, dará à esquerda o próximo mandato. Isso porque desde a eleição de Luiza Erundina, em 1988, o paulistano elege um prefeito de esquerda a cada dois de centro-direita. Boulos torce por essa lógica, após as eleições de Doria e Covas.
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O cientista político Bruno Soller explica que é o perfil do eleitorado paulistano que permite essa mudança de rumo na escolha do prefeito. Tradicionalmente, é a classe C, com quase 50% dos moradores da cidade, que define a eleição.
“A grande batalha em São Paulo é justamente conquistar esse eleitor das classes C1 e C2. Quem consegue penetrar nesse público geralmente vence na capital. E o interessante é que esse voto pode ir para os dois lados. Já votou no Fernando Haddad (PT) e no João Doria (PSDB)”, explicou.
A grande batalha em São Paulo é justamente conquistar esse eleitor das classes C1 e C2. Quem consegue penetrar nesse público geralmente vence na capital
Bruno Soller, cientista político
Polarização vai mostrar padrinho mais forte
Com o PT disposto a não lançar candidato em São Paulo pela primeira vez desde a redemocratização para manter o apoio a Boulos, o presidente Lula deve ser o maior cabo eleitoral do parlamentar mais votado por São Paulo em 2022. O deputado do PSOL teve mais de 1 milhão de votos, dos quais mais da metade lhe foram dados pela capital.
Além do recall, Boulos confia na mudança de postura dos paulistanos nas urnas. Depois de ajudar a eleger Bolsonaro, em 2018, os moradores da metrópole deram a vitória a Lula no ano passado e também a Haddad, que disputou e perdeu o governo estadual. O parlamentar afirmou para o Estadão, em abril, que o resultado de 2022 mostra que “São Paulo disse não ao bolsonarismo”.
Para o cientista político Bruno Silva, a tendência da polarização está clara para o próximo ano, mas, segundo ele, ela não será partidária, como já ocorreu entre PT e PSDB, por exemplo. “A tendência é de uma polarização baseada na transferência de votos, ou seja, no apoio político. As urnas vão mostrar quem tem o padrinho mais forte”, afirmou.
As urnas vão mostrar quem tem o padrinho mais forte
Bruno Silva, cientista político
Neste contexto de transferência de votos é que Nunes não descarta nem confirma uma eventual mudança de partido. Apesar de tradicionalmente eleger muitos prefeitos pelo Brasil, e manter nomes fortes no cenário nacional, o MDB não revela a mesma força política do Nordeste em São Paulo.
Além disso, com o partido na base do governo Lula, a transferência de votos bolsonaristas poderia não ser automática, provocando, segundo aliados do prefeito, uma espécie de “efeito Celso Russomanno” – em referência ao fato de, mesmo com apoio de Bolsonaro, o deputado não avançou para o segundo turno na capital, em 2020.
Já Pontes ou qualquer outro nome considerado bolsonarista raiz teria mais chances de se sair bem na disputa polarizada. Ainda mais se seguir o exemplo do atual governador, Tarcísio de Freitas (Republicanos), ao vestir um figurino moderado. Valdemar Costa Neto já afirmou, nesse sentido, que é um “bom nome”.
Daqui até outubro de 2024 outros pré-candidatos devem se somar à lista de pretendentes a ocupar o Edifício Matarazzo, sede da administração paulista. O Novo, por exemplo, é um dos partidos que estudam lançar candidatura própria. O cotado é o ex-deputado Vinicius Poit.
Já o União Brasil trabalha com duas possibilidades, caso a decisão seja por encabeçar uma chapa própria: lançar o deputado federal Kim Kataguiri ou repatriar o ex-governador Rodrigo Garcia, apontado como “plano B” do centro no caso de Nunes não decolar.
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