
BRASÍLIA – O novo líder do PT no Senado, Rogério Carvalho (SE), defende uma reforma ministerial no governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) “o mais rápido possível” e entrega de “coisas mais palpáveis para a população”, com a adoção de uma agenda que dialogue com todas as pessoas, independentemente dos grupos políticos.
Em entrevista ao Estadão, o parlamentar afirma que o governo precisa adotar um programa universal encabeçado pela economia que inclua a defesa da vida, da democracia e das liberdades individuais, em meio à tentativa do Planalto de recuperar a popularidade do presidente após o tombo revelado na semana passada.
A seguir, os principais trechos da entrevista.
Como deve ficar a agenda do governo Lula daqui para frente?
Foi feita muita coisa e as iniciativas ficaram isoladas, sem o devido cuidado de comunicar. As medidas devem ser apresentadas depois do carnaval. É necessário algo mais articulado, mais robusto. Tudo que vai para a economia tem alcance geral. Crédito, por exemplo, interessa a todos. Reforma tributária sobre a renda interessa a todos, principalmente àqueles que são sacrificados. A pessoa que dirige Uber ou a que tem um pequeno comércio e não é formalizado precisa de crédito para virar microempreendedor individual ou pelo menos manter sua atividade.
Houve problema na comunicação ou faltaram medidas até agora?
Ao longo do tempo, foram sendo criados vários auxílios e esses auxílios estão aí, soltos. Precisamos nos modernizar e dar robustez a esse conjunto de coisas. É preciso dar uma arrumada nisso tudo, está muito disperso. As pessoas recebem um benefício aqui, outro ali, as coisas dispersas e não são compreendidas. O mais importante é a reforma sobre a renda, o crédito consignado e o empréstimo a partir do histórico de movimentação bancária de quem não está formalizado.
Essas coisas têm potencial de impactar as pessoas e melhorar a popularidade de Lula?
Precisamos analisar a popularidade por outro prisma. O problema do Lula está muito mais fora do Brasil do que no Brasil. Nós temos uma oposição aqui e uma oposição que é externa. Pense no projeto do Trump (Donald Trump, presidente dos Estados Unidos) de desmonte de toda a institucionalidade pós-guerra e pense no que Lula representará como presidente dos Brics, um bloco que é metade do planeta.
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Haverá choques entre os interesses de Lula e de Trump?
O Trump está buscando, através dos seus métodos, os Estados Unidos para os americanos. O Lula está buscando, através dos seus métodos, Brasil para os brasileiros, China para os chineses, a interação e não a imposição de um país sobre o outro para que todos possam servir seus povos sem subjugar país nenhum. Nós temos que, antes de tudo, cuidar dos interesses do nosso povo. Se a gente se subjuga aos interesses dos Estados Unidos, quem paga a conta é o povo, geralmente os mais pobres.
Como resolver a crise de popularidade do governo?
O governo tem que se movimentar. E já começou a se movimentar. Nós temos um problema, nós precisamos enfrentar isso com mais vigor. Tem que ter uma reforma ministerial, que o Lula anunciou, e espero que ele faça o mais rápido possível. Até final de março, muito movimento vai acontecer. Depois do carnaval, a coisa começa.
Como uma reforma ministerial vai ajudar na popularidade?
Primeiro, o governo tem que montar uma equação que lhe dê sustentação política consistente e que amplie a capacidade de comunicação e entrega. É preciso melhorar o desempenho, entregar coisas mais palpáveis para a população sentir e perceber. Isso ajuda a conformar uma visão sobre o governo.

A reforma precisa ampliar espaços para outros partidos? O PT precisa ceder espaço?
Isso é irrelevante. Se tem que ampliar ou não, é secundário. Tem que ser assim: a equação política está organizada? Está. Foi ampliando um pouco? Sim. Foi substituindo? Sim ou não? Como diz o Jaques Wagner (líder do governo no Senado), isso é como o cubo mágico, vai rodando, rodando, até encaixar. No cubo mágico, as coisas são fixas e a equação é matemática. Na política, são muito variáveis e de repente a coisa muda, mas uma hora encaixa.
O Congresso está caminhando para fazer uma convergência com o governo ou já está em outra?
Veja o que o Congresso aprovou no final do ano. Eu acho que tem uma possibilidade grande de convergência. Até pelo que nós vamos ver nos próximos meses com o trumpismo. A política trumpista para o mundo deve deixar muita gente de cabelo em pé porque mexe com os interesses do andar de cima, e não com os interesses da população carente, e isso mexe mais com os interesses aqui.
Qual deve ser a linha mestra?
A linha mestra é a economia. O governo tem que organizar sua agenda em torno da defesa da vida, inclusão pela renda, inclusão pelo direito, multilateralismo, democracia e defesa das liberdades individuais.
Em termos práticos, que agenda é essa?
A defesa da vida envolve a preservação do meio ambiente, a economia sustentável e socialmente responsável e a cultura da paz, por exemplo, A inclusão pela renda é estruturar um conjunto de medidas que dê ao País e à população brasileira a capacidade de crescer e melhorar a sua vida com autonomia, como bancarização e crédito. Tem coisa mais capitalista do que isso? A inclusão pelo direito são os programas sociais, BPC (Benefício de Prestação Continuada), Bolsa Família, Pé-de-Meia e outros auxílios. O multilateralismo existe para mediar a relação entre países e povos, sem que um subjugue o outro, e é necessário para enfrentar o desmonte trumpista.
O que o sr. entende como defesa das liberdades individuais?
Por exemplo: eu sou espírita, me respeite. Eu me defino como homem heterossexual, me respeite. Eu me defino como homem homoafetivo, me respeite. Isso é a defesa das liberdades individuais. É a defesa da minha religião, da minha etnia, a minha autoafirmação. Isso já é política, mas precisamos de um pacote que dialogue com essas coisas definitivamente e que esses sejam eixos estruturantes de fato.
Essa agenda tem de ser transversal no governo ou para um ministério?
Tem que ser transversal. Eu não estou falando para quem é de direita ou para quem é de esquerda. Eu estou falando para a sociedade. Se a sociedade não estiver embasada nisso, vira barbárie. Isso precisa ser dito para todo mundo. Ou é isso ou é “dobre o tamanho do seu muro e aumente a blindagem do seu carro”.
Mas hoje existe uma tentação dos políticos de se fechar nas suas bolhas e apostar nos extremos...
Eu sou cheio de espinho. A bolha chega e eu estouro. Eu sou um mandacaru dentro da bolha e sou criticado por isso porque sou autêntico, lagartense, sergipano. Temos que estourar a bolha. Temos que virar um pé de espinho, não para agredir ninguém, mas para furar as bolhas. Essas bolhas têm um potencial de isolamento em que um grupo passa a discriminar o outro e, de repente, acha que o outro não pode existir e merece morrer.
O governo tem menos de dois anos pela frente. Dá tempo de fazer essa concertação?
O governo está atento a tudo que está acontecendo e vai trabalhar duro para organizar a sua trajetória nesses dois anos, mas estou falando de coisas transversais e universais. O governo precisa organizar sua agenda em torno desse eixo. Tem que ser algo universal. Precisamos deixar de criar conceitos que precisam de um dicionário específico para compreender. Vamos deixar de particularismos e coisismos que não dialogam universalmente com as pessoas. Quanto mais universal a linguagem for, melhor vai ser o desempenho do governo e maior vai ser a evolução da sociedade brasileira. Isso dialoga diretamente com a condição do Lula como presidente dos Brics.