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Disputas de poder e o debate político-cultural brasileiro

Opinião | Cor da pele não torna ninguém mau, nem bom

O caminho para que adiram às nossas causas, mesmo as considerando justas, imprescindíveis e urgentes, precisa ser o convencimento, não a imposição ou o constrangimento moral

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Foto do author Fabiano Lana

Observe qualquer lugar social destinado à classe média ou aos ricos brasileiros. Um restaurante, um café, uma festa, uma recepção para autoridades. Veja, em geral, em que papel estão os pretos e os mestiços nesses lugares. Sobrevivem como garçons, como seguranças, na limpeza, como cozinheiros.

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Pergunte como irão embora daquele evento para suas casas, já que pode ser tarde da noite. Poderá ouvir que irão esperar um transporte público ou um Uber incerto no meio da madrugada. No outro dia cedo já podem estar em ocupação diferente, num bico na construção civil, por exemplo. Residem longe, em um bairro violento em que o Estado oferece serviços públicos precários.

Se você estiver no centro de uma grande cidade, perceba qual a cor da pele dos mendigos em sua maior proporção. Nas residências, as chamadas empregadas domésticas, na maioria das vezes, qual é a sua coloração? Há milhões e milhões de pobres que não são negros no Brasil, porém eles não são a maioria entre a população carente. Há uma interposição entre negritude e pobreza no País.

Mas a escravidão é algo que vai muito além da trajetória brasileira e mesmo da cor da pele. Esteve em todos os continentes inclusive na África desde o início de nossa história. Tanto no Brasil como no continente africano, portugueses evitaram se expor em guerras ou rapto de pessoas. Se aliaram a certas tribos para capturar escravos de tribos rivais. Essa nódoa da escravidão ainda não conseguimos superar.

O livro de Laurentino Gomes, Escravidão – Vol. 1., lembra que o termo “escravo” é derivado do latim slavus, se refere aos eslavos, os habitantes da região dos Bálcãs, que forneceu mão de obra para o Oriente Médio e o Mediterrâneo até o século 18. Escravos eram majoritariamente pessoas brancas de olhos azuis. O mundo é mais complexo até mesmo do que se conta nas salas de aula.

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Walter Salles, diretor de 'Ainda Estou Aqui' Foto: Silvana Garzaro/Estadão

Essa questão tomou corpo quando a jornalista Etiene Martins, no Estado de Minas, escreveu o seguinte, em artigo, a respeito do diretor de “Ainda Estou Aqui”, filme que concorre ao Oscar neste mês: “Quando eu olho para o rosto do Walter Salles Jr. eu enxergo a descendência dos que torturaram, estupraram, açoitaram, mantiveram em cárcere os meus ascendentes”.

Pode até ser que a jornalista tenha razão factual – e não só sobre Walter Salles. Se fizermos uma conta simples, e não tão precisa, sobre nossos dois pais, quatro avós, oito bisavós, dezesseis tataravós, independentemente da cor da pele provavelmente encontraremos tanto escravos como escravocratas entre nossos ascendentes. Ainda mais porque, no Brasil, somos um País miscigenado.

Além disso, o Brasil tem nódoas demais para lidar. Combater e se preocupar com ditaduras (corremos esse risco agora, neste milênio) deve se somar como questões com racismo, pobreza, baixo crescimento econômico e tantas outras. Lidar com uma mazela não significa deixar outra de lado.

Há um trecho no magnifico romance Grande Sertão Veredas, de Guimarães Rosa, quando o protagonista, Riobaldo, presencia um parto, em condições precárias, e pensa consigo mesmo algo assim: “Nasceu uma criança, o mundo começou novamente” (os mais cultos depois me digam como foi a frase exata e em que página estaria).

Logo, ricos, pobres, somos jogados neste mundo, e por mais que cheguemos em condições tão díspares, mesmo injustas, não deveríamos nunca ser julgados por ter nascido (isso, não escolhemos), ou por nossas características físicas – mas apenas pela maneira como agimos neste mundo. A gente, na vida, é sempre obrigado a escolher em circunstâncias que não escolhe – e só por essas decisões podemos ser bons ou maus, a partir dos valores que nos cercam.

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É preciso estar aberto também ao fato de que não se pode obrigar a alguém a ter uma agenda na terra. Qualquer pessoa, negro ou não, tem o direito de ser ou não ser militante a favor ou contra qualquer causa (respeitadas as leis, evidente). Somos diferentes, temos o direito de ver o mundo de maneira diversa e escolher nossas prioridades buscando não machucar as pessoas com nossas ações.

Colocar nódoas morais contra quem apenas quer seguir sua vida é também uma atitude violenta (isso vale para movimentos antirracistas, ambientalistas, pró-aborto, contra aborto). O caminho para que adiram às nossas causas, mesmo as considerando justas, imprescindíveis e urgentes, precisa ser o convencimento, não a imposição ou o constrangimento moral. Não sendo assim, é mais uma ação a já dividir uma sociedade partida. Porém, é imprescindível dizer que a causa dos pretos é justa, urgente, necessária e imprescindível.

(Artigo contém trechos do livro “Brasil acima da lucidez”, do autor)

Opinião por Fabiano Lana

Fabiano Lana é formado em Comunicação Social pela UFMG e em Filosofia pela UnB, onde também tem mestrado na área. Foi repórter do Jornal do Brasil, entre outros veículos. Atua como consultor de comunicação. É autor do livro “Riobaldo agarra sua morte”, em que discute interseções entre jornalismo, política e ética.

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