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Disputas de poder e o debate político-cultural brasileiro

Opinião | Questão ucraniana revela as semelhanças cruciais entre Lula, Bolsonaro, Putin e Trump

Todos esses políticos se opõem a uma ordem liberal que tenha como pilares o multilateralismo, fronteiras abertas e o livre comércio. Querem de volta um mundo baseado em líderes fortes, populistas, com suas áreas de influência.

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Foto do author Fabiano Lana

Do ponto de vista de como deveria se organizar a nova ordem mundial, o presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva, o ex-presidente Jair Bolsonaro, o americano Donald Trump e o russo Vladimir Putin possuem muito mais semelhanças do que admitem seus cegos e mesmo ponderados admiradores. Todos esses políticos se opõem a uma ordem liberal que tenha como pilares o multilateralismo, fronteiras abertas e o livre comércio. Querem de volta um mundo baseado em líderes fortes, populistas, com suas áreas de influência.

Um tira-teima dessa tese foram os elogios de Lula a Trump, no último fim de semana, sobre a questão ucraniana. “Eu poderia ser radical contra Trump, mas na medida que o Trump toma a decisão de discutir a paz entre Rússia e Ucrânia, que o Biden deveria ter tomado, eu sou obrigado a dizer que o Trump está no caminho certo”, disse Lula, em entrevista coletiva no Vietnã.

Lula, Bolsonaro, Trump e Putin são políticos que se opõem a uma ordem liberal que tenha como pilares o multilateralismo, fronteiras abertas e o livre comércio Foto: Wilton Junior/Estadão - Allison ROBBERT/AFP - Sergei Karpukhi/AP

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Caminho certo para a paz, traduza-se: a Ucrânia, como país invadido, perde uma parte de seu território para os invasores. E, segundo esses neorrussófilos, ainda teve a sorte de não sucumbir completamente. Como justificativa, entre outras, mesmo agredido, o país teria ido longe demais ao pleitear entrar na Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), assim como já fizeram países como Polônia, Croácia, Albânia e, mais recentemente, a Suécia.

A Rússia alega estar sendo cercada pelo ocidente num discurso ecoado por autoridades como o vice-presidente americano J. D. Vance e o conselheiro internacional do presidente Lula, Celso Amorim (esses também, irmanados). Mas que tal pensar que seja o contrário? Nos pequenos países bálticos, por exemplo (Estônia, Letônia, Lituânia), a soberania se mantém apenas devido à aliança militar externa. Em todas essas nações há, inclusive, “museus da ocupação” em que se contam os horrores que sofreram na mão dos russos – incluindo o envio dos “inimigos” aos gulags – os campos de concentração soviéticos. Sabem que, se não estiverem com uma proteção externa consistente, não sobrevivem. Mas para invocar uma metáfora que remete ao machismo, a Ucrânia teria “utilizado a saia curta” ao flertar com a OTAN, e por ir isso mereceu ser agredida. Nesse caso, tanto Lula, Bolsonaro, Trump e, por certo, Putin, tendem a concordar.

Mas vamos nos concentrar no Brasil um pouco. Lula quer mesmo a paz? É o seu objetivo final? Se a gente olhar a história pelas lentes de certos pensadores como Friedrich Nietzsche, a resposta é não. O que Lula pretende com seus posicionamentos é obter mais poder, aumentar as credenciais internas e externas, e, no fundo, beneficiar principalmente a si mesmo. “Ao fazer o bem e fazer o mal a outros, exercitamos neles o nosso poder – é tudo o que queremos nesse caso!”, escreveu o pensador alemão, no livro “A Gaia Ciência” (A citação está na página 64 da edição de 2005 da Companhia das Letras). Podemos especular também que, impopular no front interno, Lula tenta novamente se apresentar como poderoso do ponto de vista internacional.

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De um lado, além de todo ranço contra a globalização, hoje representada mais pela Europa do que pelos EUA, o petismo/lulismo ainda abriga certa nostalgia dos países totalitários da chamada Cortina de Ferro – oponente da OTAN – então liderada pela União Soviética. A queda do muro de Berlim, em 1989, e a dissolução desse grupo comunista, é um trauma não superado pela nossa esquerda. Não é sem razão que Lula quer ir à Rússia em maio, nas comemorações dos 50 anos do final da Guerra Mundial, mesmo que hoje Putin seja procurado pelo Tribunal Penal Internacional.

Do outro lado do espectro ideológico na nossa polarização tupiniquim, com a eleição de Trump os bolsonaristas de redes passaram imediatamente a apoiar todas as ambições do americano, inclusive sobre como deve ser feita a paz na Ucrânia – com a sessão do território para os russos. Portanto, temos lulistas e bolsonaristas juntos contra os interesses de um país europeu.

Bolsonaro não esconde a posição de submisso a Trump. Tenta espelhar suas ações e ideias. Em suas franjas, o bolsonarismo sonha com uma espécie de retaliação do governo atual dos Estados Unidos contra a inevitável condenação de Jair Bolsonaro no Supremo Tribunal Federal pela malfadada tentativa de golpe de Estado. Aparentemente, essa é uma das missões do filho 03, Eduardo Bolsonaro, no autoexílio americano.

Enfim, Lula, Bolsonaro, Trump e Putin mostram as verdadeiras faces e os verdadeiros inimigos. Todos os que, principalmente nos anos 90, sonharam com uma ordem liberal, multilateral e global. Na época, chegaram até a afirmar que seria o ápice (ou o fim) da história – Período em que os mandatários eram FHC, por aqui, Bill Clinton, nos EUA ou Tony Blair, na Inglaterra. Os tempos mudaram. Hoje os líderes – os países mais e menos poderosos – são, em geral, mais paranóicos e desconfiados uns dos outros. Se irão prosperar em suas convicções, só a história pode nos dizer.

Opinião por Fabiano Lana

Fabiano Lana é formado em Comunicação Social pela UFMG e em Filosofia pela UnB, onde também tem mestrado na área. Foi repórter do Jornal do Brasil, entre outros veículos. Atua como consultor de comunicação. É autor do livro “Riobaldo agarra sua morte”, em que discute interseções entre jornalismo, política e ética.

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