O que está por trás do arrependimento de eleitores de Lula e Bolsonaro?

Inflação em alta, salários ruins, interesse pessoal acima dos interesses do País e tentativa de golpe são fatores que geram onda de arrependimento entre eleitores, mostra pesquisa qualitativa

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Foto do author Bianca Gomes
Atualização:

Em uma sala na Zona Sul de São Paulo, dez eleitores se reúnem em torno de uma mesa retangular. Metade votou em Luiz Inácio Lula da Silva (PT) na última eleição; a outra metade, em Jair Bolsonaro (PL). Embora suas escolhas tenham sido opostas, hoje todos compartilham o mesmo sentimento: arrependimento.

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Uma pesquisa qualitativa conduzida pelo Instituto Travessia, a pedido do Estadão, revela as razões pelas quais eleitores das duas maiores lideranças do País estão decepcionados e em busca de uma alternativa para 2026.

O grupo focal (técnica de pesquisa em que um grupo discute um tema sob a orientação de um moderador) reuniu dez eleitores paulistanos: cinco que votaram em Lula e cinco em Bolsonaro, todos arrependidos de suas escolhas. Seis são mulheres, quatro são homens, com idades entre 25 e 65 anos. Eles vêm de diferentes regiões de São Paulo e pertencem às classes B2 e C1, com renda familiar entre R$ 3,5 mil e R$ 8 mil.

A dinâmica foi conduzida pelo cientista político Renato Dorgan, CEO do Instituto Travessia, e o Estadão acompanhou tudo de dentro de uma “sala de espelho”, um espaço que permite a observação dos participantes sem que eles se deem conta de que estão sendo observados.

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Pesquisa qualitativa exclusiva revela por que eleitores de Lula e Bolsonaro estão arrependidos do voto em 2022 Foto: Eduardo Baptistão

O preço dos alimentos nas alturas é, de longe, a maior angústia dos eleitores arrependidos de Lula. Uma participante, moradora da Vila França, na periferia da Zona Sul de São Paulo, é mãe atípica e contou que já não consegue mais encher o carrinho de supermercado. Um de seus filhos só come alimentos da cor verde, e, com a disparada dos preços, ela se vê forçada a fazer escolhas difíceis: “Se compro o alface, deixo o brócolis”.

Outro ex-lulista vai na mesma linha e afirmou que toda semana tem sentido o peso da inflação. “Você vai ao mercado já preparado para voltar com menos compras para a casa”, disse.

Mas o descontentamento vai além disso. Embora reconheçam o menor desemprego da série histórica, os eleitores arrependidos de Lula afirmam que o trabalho que existe paga mal e não acompanha o aumento do custo de vida.

Dois anos após apertar o 13 na urna, um estudante de medicina que participou da pesquisa afirmou que Lula se afastou da base que o elegeu. Por outro lado, se aproximou da direita e do Centrão. “Ele esqueceu do eleitor dele, da centro-esquerda, da esquerda. Quem não votou nele, não vai votar nunca”, disse o estudante, que criticou a escolha de ministros de centro-direita. Ele citou a prioridade dada ao agronegócio em detrimento dos indígenas como exemplo do distanciamento do presidente das pautas que o elegeram.

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A pesquisa mostra que a preocupação de Lula com a comunicação do governo é justificável. Quando questionados sobre uma marca forte da atual gestão, os dez eleitores se entreolharam em silêncio. Com esforço, alguém arriscou: “Tem aquele negócio... aquele incentivo para os estudantes”. Só então se dão conta: trata-se do programa Pé-de-Meia.

Com um pouco mais de esforço, os participantes da pesquisa acrescentam à lista de bons feitos do governo a retomada das relações internacionais, que saíram desgastadas da gestão Bolsonaro.

Os ministros do atual governo também passam longe da ponta da língua. Quando questionados sobre quem compõe o primeiro escalão do governo, os ministros mais lembrados são Fernando Haddad (Fazenda), associado ao trocadilho “Taxad”, e Marina Silva (Meio Ambiente), com um ex-eleitor de Bolsonaro elogiando a redução do desmatamento sob sua gestão. Já Simone Tebet (Planejamento) passa quase despercebida, e Geraldo Alckmin é visto apenas como vice – ninguém se lembra de que também é ministro. Nem mesmo as trocas mais recentes no governo são mencionadas, como a nomeação de Gleisi Hoffmann para a Secretaria de Relações Institucionais.

“A pesquisa mostra que há uma quebra de confiança quase definitiva em relação a Lula por parte de muitos de seus eleitores. Eles deram mais uma chance a ele, após todos os problemas que ocorreram, com a expectativa de uma melhoria no custo de vida, mas isso não aconteceu. Para uma parte do seu eleitorado, isso parece colocá-lo em ‘aposentadoria’”, afirmou Renato Dorgan.

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De golpe a interesses pessoais: os motivos do arrependimento de ex-bolsonaristas

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Já os cinco eleitores de Bolsonaro citam como motivo de arrependimento a prioridade que o ex-presidente dava aos próprios interesses, deixando o País em segundo plano. “Ele desviou a função da Polícia Federal para encobrir os filhos”, disse um ex-bolsonarista. Outra participante reforçou: “A postura política dele foi muito ruim. Para você ser um político, precisa colocar as questões do País em pauta, não as questões pessoais”.

As acusações de tentativa de golpe de Estado também pesam na avaliação. “Ele fala tanto do povo, mas queria colocar o militarismo. E o militarismo não é bom”, disse uma eleitora aposentada da Zona Leste, que viveu os anos do regime militar. No grupo, não há dúvidas: todos os cinco participantes que votaram em Bolsonaro acreditam que ele tentou dar um golpe em 2022, mas falhou. E a maioria vê um destino provável para ele – atrás das grades.

Cinco anos depois, a gestão da pandemia de covid-19 ainda é lembrada negativamente pelos eleitores de Bolsonaro. Para uma eleitora, “ele minimizou muito a questão da pandemia, foi muito grave, era um momento muito difícil e ele errou, demorou para comprar vacinas”. Outro deles, que é médico, apontou que o ex-presidente “afastou ministros que estavam preocupados com a saúde”.

O foco na pauta das armas também incomoda, especialmente uma eleitora evangélica. As relações exteriores são outro ponto de crítica. “Ele não teve flexibilidade política para liderar o País”, resumiu uma participante.

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O cientista político avalia que “no lado de Bolsonaro, a imagem entre esses eleitores arrependidos é de radicalismo e agressividade. A gestão dele, especialmente durante a pandemia, causou grande preocupação. Essa situação nos dois lados abre um caminho, que não existia em 2022, para candidatos mais centralizados e ponderados, principalmente da centro-direita.”

Lula ‘cansado’ e Bolsonaro ‘arrogante’

Durante a pesquisa, os participantes foram expostos a imagens de possíveis presidenciáveis. Ao ver a foto de Lula, não demoraram a associá-lo a termos como “cansado”, “decepção”, “ladrão”, “exausto” e “aposentado”. Já ao ver Bolsonaro, as críticas seguiram um caminho diferente, mas não foram menos duras. Entre as palavras usadas estavam “arrogante”, “prepotente”, “autoritarismo”, “despreparo”, “irresponsável”, “psicopata”, “despreparado” e “preconceituoso”.

Mesmo tendo escolhido lados opostos na última eleição, esses eleitores concordam em um ponto: tanto Lula quanto Bolsonaro deveriam dar espaço para novas lideranças – e já passou da hora de ambos se aposentarem da política.

Apesar da insatisfação generalizada, a pesquisa revela que a eleição de 2026 ainda está longe do radar desses eleitores. Quando apresentados a outros nomes da política nacional, a maioria nem sequer reconheceu figuras como os governadores Ronaldo Caiado (União Brasil), de Goiás, Ratinho Junior (PSD), do Paraná, e Romeu Zema (Novo), de Minas Gerais. O ex-coach Pablo Marçal (PRTB) é um dos poucos nomes da direita lembrados espontaneamente como opção para a Presidência.

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Tarcísio de Freitas (Republicanos), por ser governador de São Paulo, é amplamente reconhecido. Embora sua gestão não desperte grande entusiasmo, muitos o consideram uma opção mais viável do que Lula e Bolsonaro. Sua administração é avaliada como regular, mas a violência policial é vista como um problema até mesmo entre eleitores de Bolsonaro. Quando questionados sobre suas ações, os participantes não conseguem citar projetos específicos, e alguns nem sequer lembram se votaram nele.

Eduardo Bolsonaro, citado como um possível sucessor natural do pai, não causa boa impressão. Para a maioria, o deputado licenciado é apenas uma cópia, um “Bolsonaro 2”, carregando o mesmo discurso radical e preconceituoso do ex-presidente.

Já a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro, apesar das dúvidas sobre sua independência – alguns acreditam que ela seria manipulada –, deixa uma impressão mais positiva. Além de agradar aos bolsonaristas, também desperta simpatia em uma eleitora evangélica que votou em Lula. No fim, o grupo sugere que Michelle parece ter mais potencial eleitoral do que Eduardo.

Do lado do governo atual, as opções apontadas foram o vice-presidente Alckmin e o ministro da Fazenda, Haddad.

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O ex-governador de São Paulo agrada parte do grupo como candidato ao governo federal, especialmente entre eleitores de Lula, mas alguns avaliam que ele estaria “velho” para a posição. Outros falam que Alckmin tem poucas marcas de gestão. Ainda, a maioria acredita que poderia ser um candidato mais interessante do que Lula.

A respeito de Haddad, ele é o primeiro nome lembrado quando o grupo é questionado sobre o quadro ministerial do governo. Um eleitor identificado com a esquerda elogia a reforma tributária, mas o ministro é majoritariamente relacionado às taxas. Alguns eleitores de Bolsonaro admitem que o petista é uma pessoa estudada e com “carreira”, o que agrada o grupo. Ele é visto como “preparado” e um sucessor possível para o presidente.

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