Caso Gritzbach, delator do PCC: o que dizem acusação, defesa e a sentença que mandou os PMs a júri

Decisão da Vara do Júri de Guarulhos determinou que policiais serão acusados de homicídio quadruplicadamente qualificado no caso do delator e triplamente qualificado em razão da morte do motorista de app, além de outras duas tentativas de homicídio; defesa afirma que provará que réus não estavam no local do crime

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Foto do autor Ítalo Lo Re
Foto do autor Marcelo Godoy

Imagens fortes: vídeo mostra execução de empresário que delatou PCC no Aeroporto de Guarulhos

Antonio Vinicius Lopes Gritzbach foi baleado no Terminal 2.

Confira o resumo que a LE.IA, a IA do Estadão, fez pra você

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Um crime por motivo torpe, que usou um meio cruel para ser atingido ao colocar em risco a vida de quem passava por ali. Um delito praticado de tal forma que a vítima não teve chance de defesa bem como com o uso de arma de fogo de alto poder destrutivo e cuja posse é proibida.

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São essas as quatro circunstâncias qualificadoras da conduta dos réus acusados de executar o empresário Antônio Vinicius Lopes Gritzbach, de 38 anos, o delator do Primeiro Comando da Capital (PCC). Elas estão na sentença de pronúncia da Vara do Júri de Guarulhos, que decidiu submeter a julgamento os três policiais militares acusados. A defesa dos três nega o crime (leia mais abaixo).

Começa nesta segunda-feira, 22, o tribunal do júri dos três acusados pela execução de Gritzbach em novembro de 2024 no Aeroporto Internacional de Guarulhos, região metropolitana de São Paulo. Investigado por lavar dinheiro para a facção, ele vinha colaborando com o Ministério Público do Estado (MP-SP) em uma das principais investigações contra o crime organizado dos últimos anos.

O corpo do empresário Antônio Vinicius Lopes Gritzbach: acusação diz que PCC mandou matar empresário e pagou PMs para executar o crime. Foto: Polícia Civil

Cada uma das circunstâncias qualificadoras da conduta dos réus tem a capacidade de aumentar no mínimo em três anos a pena de cada um deles. Ou seja, só pela morte de Gritzbach os réus podem pegar no mínimo 21 anos de cadeia. Mas eles são ainda acusados de matar o motorista de aplicativo Celso Araújo Sampaio de Novais, de 42 anos, e de tentar matar o funcionário do aeroporto Willian Souza Santos, de 41 anos, e a técnica Samara Lima de Oliveira, de 30 anos.

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Somados os 21 anos aos 18 anos pela morte do motorista de aplicativo e a mais 12 anos pelas duas tentativas de homicídios, as penas por um dos mais ousados crimes até hoje perpetrados a mando de líderes da facção criminosa podem chegar a mais de 50 anos. O cabo Dênis Antônio Martins, de 41 anos, o soldado Ruan Silva Rodrigues, de 33 anos e o primeiro-tenente Fernando Genauro da Silva, de 35 anos, são os réus do primeiro julgamento do caso.

Seus advogados tentarão convencer os sete jurados a duvidar das conclusões das 486 páginas do relatório final do inquérito do Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP). O documento diz que Dênis e Ruan dispararam os tiros de fuzis calibre 7,62 mm e 5,56 mm que atingiram as vítimas do atentado no setor de desembarque do Aeroporto de Guarulhos, enquanto o tenente dirigia o carro em que eles fugiram. Era 8 de novembro de 2024.

A sentença de pronúncia dos réus proferida pelo juiz Rodrigo Tellini de Aguirre Camargo, da Vara do Júri de Guarulhos, diz que Gritzbach foi aliciado pelo PCC para atuar como gestor financeiro dos recursos de bandidos da facção. Para tanto, adquiriu imóveis e criptomoedas.

Acabou acusado de dar um desfalque na facção e mandar matar o traficante Anselmo Becheli Santa Fausta, o Cara Preta, e seu colega Antônio Corona Neto, o Sem Sangue. Em 2024, ele decidiu fazer um acordo de delação premiada com o Ministério Público de São Paulo.

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Relatório do inquérito sobre a morte de Antônio Vinicius Lopes Gritzbach foi feito pelo DHPP. Foto: POLÍCIA CIVIL

“Frustrada qualquer expectativa em reaver os valores investidos, foi decretada a ‘sentença de morte’ de Antônio Vinicius, a ser providenciada por integrantes da facção criminosa e por policiais militares a ela relacionados”, descreve a sentença.

Emílio Carlos Gongorra Castilho, o Cigarreira, e Diego dos Santos Amaral, o Didi, seriam os traficantes mandantes do crime. Primo de Didi, Kauê dos Santos Coelho, teria atuado como olheiro no aeroporto para acionar os PMs contratados para a execução. Cigarreira, Didi e Kauê estão foragidos. A reportagem não localizou a defesa dos outros acusados.

O que dizem as defesas dos acusados

A defesa do cabo Dênis alegou que o policial foi acusado por ser negro, como “reflexo de uma engrenagem seletiva que há séculos criminaliza a negritude no País”. Segundo sua defesa, a acusação contra ele é desprovida de provas e está amparada em elementos frágeis e subjetivos, o que evidencia “como a cor da pele opera como critério ilegítimo da imputação penal”. Queria a absolvição sumária do réu. Não a obteve.

Ao ser interrogado, Dênis também negou o crime. Disse, então, acreditar que a polícia buscava “um culpado e o indicaram para acobertar os reais autores”. Relatou que, no dia do crime, estava de férias e fazia a manutenção de seu apartamento. Negou ter estado perto do aeroporto de Guarulhos e disse não se lembrar de ter falado com o tenente Genauro naquele dia. Por fim, justificou que trocou seu telefone celular após o crime porque o antigo estava falhando.

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A defesa do soldado Ruan e do tenente Genauro afirma que vai provar que eles estavam em outro lugar no dia e na hora do atentado contra Gritzbach, mas não informou como pretende fazer isso para convencer os jurados. Genauro disse em seu interrogatório que é inocente e acusou os policiais civis de querer prejudicá-lo. “Esclareceu que, no dia do crime, estava em sua casa e que, depois dos fatos, trocou o aparelho celular e foi para Parati (RJ).”

Ruan também negou o crime. Ele contou que no dia do atentado estava na casa de sua mãe, durante a manhã. À tarde, disse ter trabalhado em uma sorveteria: The Brothers, no Parque Aquático Thermas da Mata. Também confirmou ter trocado de aparelho celular após o crime, mas alegou que o fez porque o telefone que tinha “caiu na água”.

Para o magistrado, os três devem ser submetidos ao júri porque existiam provas da existência do crime e “indícios suficientes de autoria delitiva quanto ao crime doloso contra a vida praticado pelos réus Dênis e Ruan, bem como a participação do acusado Fernando Genauro, de modo a viabilizar a pronúncia dos acusados”.

O testemunho da delegada e as provas da acusação

Uma das principais testemunhas do caso será a delegada Luciana Peixoto, que presidiu o inquérito do DHPP. Ela vai relatar como foram feitas as perícias e as buscas por provas que incriminaram os policiais.

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Segundo ela, o local do crime foi dividido em três áreas principais: a área de desembarque do aeroporto de Guarulhos, onde ocorreu o atentado, a área onde o veículo Gol usado na fuga pelos executores foi abandonado e a área onde estavam os carros da escolta de Gritzbach, que era feita por policiais militares.

No dia seguinte ao crime, uma nova perícia foi feita no lugar onde foram achadas as armas dos bandidos. “A equipe de investigação realizou o levantamento do trajeto dos suspeitos a partir do abandono do veículo Gol, utilizando imagens de câmeras de segurança. Os dois indivíduos que abandonaram as armas seguiram caminhos distintos até se encontrarem em um ponto de ônibus, sendo possível obter imagens internas do ônibus e identificar o terminal (Cecap, em Guarulhos) onde desembarcaram”, contou a delegada.

Laudo do IML mostra que Antônio Gritzbach foi atingido e morto por oito disparos de fuzil no desembarque do aeroporto de Guarulhos. Foto: Reprodução/Polícia Civil

Foi a análise das imagens e do trajeto que levou a polícia a algumas das principais provas contra os acusados. “Os investigadores conseguiram as imagens das câmeras do aeroporto. A partir delas, foi possível identificar o comportamento suspeito de Kauê, consolidando-o como ponto inicial da investigação”, disse a delegada. A partir daí, a polícia fez um pedido às operadoras de celular e empresas a identificação de celulares presentes na região do aeroporto e nos locais próximos ao local de abandono do Gol e das armas.

A delegada disse que suspeitava de que o crime tivesse sido praticado por policial militar em razão do modus operandi. A partir disso, “foram analisadas as características físicas e dados de telefonia, chegando à figura do cabo Dênis, que apresentava compatibilidade com as imagens dos autores do crime”. É que as imagens de câmeras nas ruas e em um ônibus mostravam que um dos atiradores tinha uma tatuagem em forma de cruz, idêntica à que o policial tem.

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A delegada solicitou a quebra de sigilos telefônico, bancário e telemático de Dênis. Apesar de os réus terem trocado de telefone dias depois do crime, a polícia conseguiu recuperar parte das informações. “A nuvem da Apple e do Google e WhatsApp trouxeram dados relevantes”, informou a delegada. Segundo ela, foi possível observar que o cabo telefonou às 17 horas, por duas vezes para um telefone registrado em nome da mãe do tenente Fernando Genauro.

Além disso, o telefone de Dênis acessou a Estação Rádio-Base (ERB, de telefonia celular) da região da casa de Genauro ao meio-dia de 8 de novembro, quatro horas antes do crime. A delegada contou que descobriu que os PMs haviam pesquisado a cotação de criptomoedas. “A análise dos dados telemáticos de Dênis e Ruan apurou que ambos tinham prints contendo cotações ou transações em criptomoedas (Bitcoins), o que sugere a relação desta modalidade para pagamento pelo crime, ante a dificuldade de seu rastreamento”, diz a pronúncia.

Caso Gritzbach: DHPP mostra que tenente Genauro pesquisou Bitcoin; suspeita da polícia é que pagamento foi em criptomoeda Foto: Polícia Civil

Dênis havia apagado o contato de Fernando Genauro em seu telefone apesar de serem amigos. A delegada afirmou que, na residência do tenente, foram localizadas roupas compatíveis com as usadas pelo motorista do Gol no dia do crime e ele apresentou versões contraditórias. Por meio de análise de IPs, foi possível identificar o momento em que ele saiu de casa e desligou o telefone por volta das 14 horas, permanecendo incomunicável até o dia seguinte.

O tenente era conhecido de Gritzbach, que mantinha mais de uma dúzia de PMs como seus seguranças. De acordo com a delegada, o tenente se aproximou do empresário para “fazer negócios”. Dizia ter interesse em um imóvel no Guarujá. A delegada explicou ainda que Genauro postava fotos ostentando dinheiro e que, após o crime, passou a utilizar um veículo de alto valor (Audi Q3), além de ter apagado contatos de Dênis e Ruan.

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Nos dias posteriores ao crime, Genauro enviou diversos torpedos via SMS para três números de telefone, os mesmos para os quais Kauê também enviava mensagens, “o que evidencia que a comunicação do grupo de criminosos era feita por meio de SMS”. Após sua prisão, a delegada recebeu a informação de que Ruan era o terceiro envolvido. Suas características físicas eram compatíveis com as imagens dos autores do crime capturadas pelas câmeras de Guarulhos.

Ruan aparece, por exemplo, pagando a passagem de ônibus que os atiradores apanharam após o abandono do Gol. O ônibus levou os dois até o Terminal Cecap, em Guarulhos, onde eles foram resgatados por Kauê, que os buscou com um Audi A1. Segundo a delegada, ao analisar o número de telefone de Ruan, também foi possível identificá-lo nas ERBs acessadas próximas ao local do abandono do veículo Gol e ao terminal de ônibus. Ele foi ainda flagrado conversando ao telefone no momento em que seu telefone aparece na ERB do terminal de ônibus.

Organograma dos envolvidos na morte de AntÔnio Gritzbach, segundo relatório do DHPP: Cigarreira aparece como mandante do crime. Foto: Polícia Civil de São Paulo

Segundo ela, Genauro e Ruan mantinham relação próxima, conforme fotografias apreendidas demonstrariam. Ainda de acordo com ela, em 7 de novembro de 2024, Ruan tirou print de todos os voos que voltavam de Maceió no dia do crime – Gritzbach vinha da capital alagoana quando foi fuzilado na área de desembarque do aeroporto.

Os exames de DNA que colocaram os PMs no local do crime

A delegada conclui sua descrição sobre os telefones dos acusados contando que o telefone de Dênis também foi localizado na ERB após o abandono do Gol usado no crime – dentro do carro havia um bloqueador de sinal (Jammer), o que impedia a detecção dos telefones dos PMs nas ERBs no aeroporto. Foi então que a policial aborda aquela que deve ser a prova definitiva da participação dos acusados no crime: os exames de DNA.

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Mesmo com a recusa de Dênis, de Ruan e de Fernando Genauro de fornecer material genético para os exames, a perícia encontrou em um boné, em um moletom e em luvas deixadas no Gol abandonado pelos assassinos material genético que demonstrou ser “compatível com Dênis”, o que confirmou que ele era um dos criminosos que participaram do crime. Para fazer a comparação, a perícia usou material recolhido na casa do PM.

Na maçaneta da porta traseira direita do Gol foi encontrado material genético de Ruan, o que também pôs o policial, definitivamente, na cena do crime. O exame foi possível em seu caso porque na casa do soldado e na residência de sua sogra foram apreendidos barbeador e escova de cabelo, utilizados para coleta de material genético usado para os exames.

Por fim, os registros de câmeras de avenidas e estradas nos trajetos do Gol usado pelos policiais e do Audi A1 usado por Kauê também ligam os acusados ao trajeto entre as suas casas e o aeroporto. “Genauro mora em Osasco, bem próximo a um dos radares que captou a passagem do veículo Gol”, afirmou a delegada. O tenente deletou os contatos de sua agenda após o crime. E todos os réus se desfizeram de seus telefones celulares após o crime.

“Extrai-se, portanto, que em que pesem as negativas de autoria, o réu Fernando Genauro teria concorrido para a prática dos delitos”, escreveu o magistrado na pronúncia. Ele então concluiu: “A melhor solução é deixar a critério do E. Tribunal Popular a decisão final sobre as condutas dos réus Dênis Antônio Martins, Ruan Silva Rodrigues e Fernando Genauro da Silva”.

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