
A diretora executiva do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, Samira Bueno, de 39 anos, foi assaltada pela primeira vez na vida em julho do ano passado. Teve o celular de última geração arrancado da mão por um jovem de bicicleta, na Rua Oscar Freire, uma das mais nobres de São Paulo.
Sete meses depois, um motoqueiro com uma mochila de aplicativo de entrega nas costas tentou levar o novo aparelho de Samira, dessa vez sem sucesso. “Entrei para as estatísticas”, contou, em entrevista ao Estadão sobre a violência urbana.
Embora os números mostrem queda de crimes patrimoniais, como roubos e furtos, a insegurança da população é crescente, diante da alta de latrocínios (roubos seguidos de morte) e roubo à mão armada.
A percepção de insegurança não é desproporcional, segundo a socióloga, porque esses são crimes que afetam toda a população, da periferia aos bairros mais nobres. Só neste ano, uma série de assaltos que terminaram em tragédia assustou os paulistanos, a exemplo do jovem assassinado na frente do namorado em Pinheiros, na zona oeste, ou o ciclista que morreu baleado perto do Parque do Povo, na zona sul.
Segundo Samira, o aumento de latrocínios (23,2% no ano passado) na cidade está diretamente ligado ao crime de roubo e furto de celular e também à elevação expressiva do número de armas em circulação nos últimos anos.
“Vivemos uma situação muito grave em São Paulo”, afirmou Samira, em entrevista ao Estadão “A população tem toda razão de estar amedrontada.”
Além disso, segundo ela, desde a pandemia mudou significativamente a dinâmica da criminalidade: o celular tem sido cada vez mais valorizado. Isso porque o aparelho dá acesso a dados pessoais, a aplicativos de bancos e de compras com cartões cadastrados, e ainda para aplicar golpes de estelionato. Ou seja, boa parte dos roubos deixou de ser analógica e, agora, é prevalente na esfera digital.
Veja abaixo a entrevista completa:
Os números gerais da violência em São Paulo vêm caindo nos últimos anos. No entanto, aumentaram os latrocínios (roubos seguido de morte) em algumas regiões, sobretudo em bairros de classe média alta. Como analisa essa situação?
A primeira coisa destacar é que há enorme distância entre os números e a sensação de segurança. Em São Paulo, os homicídios dolosos tiveram redução de mais de 70% desde ano 2000. Mas quando fazemos pesquisas sobre a percepção de segurança, vemos que o homicídio doloso não aparece como preocupação. As pessoas têm medo de serem vítimas de roubo, de latrocínio, mas não se sentem em risco de serem vítimas de homicídio.
Por que isso acontece? O homicídio não seria o maior temor?
A verdade é que os homicídios ocorrem em áreas muito restritas da cidade. Em São Paulo, estão concentrados nas áreas periféricas. Ou seja, não é um crime que acontece em toda a cidade, como o roubo e o latrocínio. Então, há esse enorme hiato entre as estatísticas produzidas e a sensação de segurança. A redução de homicídios não necessariamente gera sensação de segurança porque a maioria da população não se sente exposta a esse tipo de violência.
Mas o roubo também diminuiu, embora os casos de latrocínio tenham aumentado....
Sim, o roubo vem caindo ano a ano. Mas isso acontece porque tivemos uma mudança na dinâmica criminal durante a pandemia por conta do comércio fechado, das pessoas em casa. Os criminosos precisaram arrumar outras formas de fazer dinheiro que não fossem os de ruas, de residências. Tudo isso caiu muito na pandemia. Depois, voltaram a crescer, mas ainda se mantêm em patamares muito abaixo do que era em 2019.
Mas onde eles estão fazendo dinheiro?
Houve migração do roubo para o estelionato. Entre 2018 e 2023, esse tipo de crime aumentou 360% no Brasil. E este crime está associado ao roubo e furto de celulares, que são usados para acessar informações e dar golpes. Além disso, é muito menos arriscado roubar um celular do que um carro, sendo que ele pode conseguir um bom dinheiro, dependendo do modelo (do telefone).
Mas o roubo e o furto de celulares também estão em queda, não?
Sim, na verdade, roubo e furto de celular também estão em queda, mas ainda se rouba muito. Levantamento nosso (do Fórum de Segurança Pública) do ano passado mostra que são 204 mil celulares roubados ou furtados por ano na cidade de São Paulo, o que corresponde a 20% do total de aparelhos subtraídos em todo o País. Para se ter ideia, no Rio, essa porcentagem é de 3,5%.
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Podemos dizer, então, que, apesar da queda dos índices de violência, o aumento de determinados crimes em regiões específicas da cidade pode trazer sensação de insegurança maior, aparentemente desproporcional aos resultados em geral?
Isso, mas não necessariamente desproporcional. Os indicadores mais recentes da Secretaria de Segurança Pública de São Paulo nos mostram os menores níveis de roubo de carga, banco, veículo e a transeunte. Mas há um fenômeno que me parece que está crescendo e que não é aferido pela secretaria: o roubo a mão armada. Eu moro e trabalho na zona oeste. A padaria aqui perto de casa, que nunca tinha sido assaltada, teve dois roubos a mão armada em poucos meses. Me parece que o fenômeno é cada vez mais frequente. E os latrocínios, de fato, aumentaram.
E que análise podemos fazer dessas informações todas?
O que conseguimos perceber, juntando essas peças, é que o aumento dos latrocínios está relacionado à tentativa de roubo do celular. Para começar, o aparelho em si é valioso. Há quadrilhas especializadas em mandar celulares roubados para países da África e da Ásia que não são signatários do acordo de bloqueio dos celulares roubados. Um aparelho roubado no Brasil não funciona nos Estados Unidos por conta do bloqueio, mas funciona na Nigéria e no Senegal, por exemplo. Além da venda do aparelho, ele pode ser clonado, permitindo o acesso a muitas informações, aplicativos de vendas e de bancos. Eu mesma entrei para a estatística no ano passado.
E como foi isso?
Eu estava na Oscar Freire, saindo de uma loja, e estava mandando uma mensagem. Ou seja: o celular estava desbloqueado. O garoto passou de bicicleta e levou o aparelho. Cheguei a ver ele desacelerando para trocar a senha e colocar em modo avião (para não ser localizado). O meu aparelho era programado para deletar informações pessoais assim que fosse bloqueado. Mas eu tinha aplicativos de compras com o cartão de crédito cadastrado e nem me dei conta disso. Em 15 minutos, compraram R$ 6 mil em bebidas alcoólicas. Conseguiram comprar uma única garrafa de uísque de R$ 1,6 mil. Esse é o potencial do que significa hoje roubar um celular.
Esse tipo de crime é que está levando a essa sensação generalizada de insegurança?
O roubo de celular é uma modalidade muito democrática, no sentido de que acontece em todas as regiões da cidade e atinge toda a população. Uma pesquisa recente nossa revelou que o pico dos roubos acontece entre 5h e 7h da manhã. Ora, quem está na rua nesse horário? Trabalhador, né? Ou seja, não é uma modalidade restrita à classe média, ela segue elevada e atinge todo mundo. A população tem toda razão de estar amedrontada. Além de ter sido roubada em julho do ano passado, ainda sofri uma tentativa de roubo em fevereiro deste ano. E eu nunca havia sido roubada.
Desta vez não conseguiram levar o celular?
Não. O sujeito estava numa moto, com uma mochila de entregador nas costas, invadiu a calçada e tentou levar meu celular. Eu fiz a pior coisa que poderia ter feito: apertei o celular na mão e empurrei o motoqueiro. Logo eu, que trabalho com isso! Se ele tivesse armado, já era. O certo é deixar levar.
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Mas estávamos falando do aumento do latrocínio, que é o roubo seguido de morte...
Sim, outro ponto que queria destacar é que hoje há muito mais armas em circulação. No ano passado, houve aumento dos latrocínios de 23,2%, e de 31% no número de armas de fogo apreendidas. Esse é um indício de que há mais armas circulando. De fato, durante a gestão de Jair Bolsonaro, tivemos muito mais licenças de porte de armas de fogo. E pouco importa se são legais ou ilegais porque, inevitavelmente, serão desviadas para o mercado ilegal. Com mais arma circulando, o preço da arma cai. É a lei da oferta e da procura. É mais barato para o cidadão que quer se proteger e também para o criminoso. Por isso, insistimos tanto nessa questão do armamento da população: tem um impacto grande na violência urbana.
Falando sobre as câmeras de segurança: a circulação dessas imagens não intimida os criminosos? E, por outro lado, esses registros também não ajudam a aumentar a sensação de insegurança?
É muito comum que os criminosos estejam com capacete, então não tem reconhecimento facial. Em geral, eles usam motos com placas frias. E a verdade é que a polícia tem enorme dificuldade de resolver crimes. A polícia civil, de maneira geral, e a de São Paulo, especificamente. Se o sujeito não for preso em flagrante, é muito possível que esse crime fique sem solução. Por outro lado, as imagens circulam cada vez mais. Em outros tempos, mesmo que tivéssemos índices de violência muito piores, não tínhamos tantas imagens. Isso aumenta, sim, a sensação de insegurança. Começamos a nos reconhecer no lugar das vítimas, nos lugares por onde andamos, que frequentamos, nos hábitos que temos.
Concorda com algumas das políticas que estão sendo implementadas pela Secretaria da Segurança, como grandes operações para recuperação de aparelhos de celular e patrulhamento mais ostensivo em algumas áreas? Essa é a solução?
Sim, isso é fundamental. Eu diria que é a ação mais importante que temos a disposição. Mas esse precisa ser o trabalho cotidiano da polícia, não pode ser uma ação especial. Se São Paulo tem um problema tão significativo de roubo e furto de celular, e se esse crime gera tanta insegurança e está ligado à alta dos latrocínios, essas grande operações têm de ser o “feijão com arroz” da polícia. Precisamos ter divisões trabalhando só na desarticulação dos grupos de interceptadores. Enquanto houver receptação, haverá roubo e furto. O patrulhamento ostensivo melhora naquele momento, naquela rua. Mas o crime muda para a rua do lado, para o bairro seguinte.
A tecnologia não seria mais eficiente?
Já temos alguns programas criados no Brasil que são bem sucedidos na redução de roubos e furtos de celulares. As iniciativas mais conhecidas são as adotadas no Piauí e no Amazonas. São softwares que apoiam a polícia no rastreamento dos aparelhos. Além disso, há um acordo de cooperação técnica entre as empresas de telefonia e o Judiciário para que, em vez de fazer um inquérito para cada roubo, fazer um único inquérito para cada mil celulares, com autorização judicial para a busca dos equipamentos. No Amazonas é um pouco diferente. A polícia entende que a maioria dos aparelhos roubados vai parar nas mãos de um cidadão comum que comprou um celular mais barato. Essas pessoas recebem uma mensagem alertando que elas compraram um celular roubado e pedindo para que devolvam o aparelho. Criaram uma delegacia dentro de um shopping em Manaus para isso. Está dando certo. As pessoas entendem que podem ser presas por receptação e estão devolvendo. Essa iniciativa já está sendo adotada em outros lugares. Não sei por que São Paulo não adotou.
Mas não seria residual a situação de o aparelho cair na mão do cidadão comum?
Com 200 mil aparelhos subtraídos por ano, acho que não. Além disso, se há tantos roubos e furtos, todas as iniciativas devem ser usadas.
E as iniciativas das próprias empresas de celular? De bloqueio, essas coisas?
Várias empresas estão aprimorando os mecanismos antirroubo. Alguns exigem reconhecimento facial; outros são bloqueados automaticamente com movimentos bruscos, por exemplo. Ele entende que o aparelho está sendo arrancado da sua mão. Mas isso também pode explicar a alta dos latrocínios. Quanto mais difícil for para desbloquear, mais interação entre o criminoso e a vítima será necessária. Ou seja, é preciso estar ciente de que boas medidas também podem ter aspectos negativos. Acho também que as empresas, em geral, poderiam ser mais cobradas ou vai ficar tudo na conta da polícia. E a polícia, claramente, não está dando conta. O criminoso com a mochila trabalha mesmo no aplicativo (de delivery, por exemplo)? Ou só pegou a mochila para fazer o roubo? Só vamos sair dessa lama com um esforço conjunto, com o fortalecimento da investigação por parte da polícia, da fiscalização dos locais de revenda, tanto os físicos quanto os online, do uso de programas de rastreamento como os que estão sendo usados no Piauí e no Amazonas, e do envolvimento do setor privado.