A primeira vez que o autismo foi mencionado no Manual Diagnóstico e Estatístico de Distúrbios Mentais (DSM), conhecido como a “bíblia da psiquiatria”, foi em 1980. De lá pra cá, os critérios de diagnóstico mudaram muito. Pessoas que não preenchiam os requisitos necessários para serem consideradas autistas até pouco tempo atrás, agora podem se encaixar no espectro. Em paralelo, o conhecimento e a visibilidade sobre a condição aumentaram. Hoje, o diagnóstico está cada vez mais comum, sobretudo entre crianças e adolescentes.
Mas o autismo é uma condição que acompanha o indivíduo por toda a vida. Considerando que muita gente não recebeu o diagnóstico lá atrás, quando pouco se falava do assunto, sabe-se que há muitos adultos e idosos convivendo com o quadro sem nem imaginar. Só que mesmo na velhice o diagnóstico pode ressignificar a vida.

Foi o que aconteceu com o advogado Weber Abrahão, de 61 anos. Ele recebeu o diagnóstico aos 59, depois da confirmação de que o filho é autista. Na adolescência, Abrahão pulava a janela de casa quando uma visita chegava. Depois, passou a trancar a porta. Hoje, ter relações sociais ainda exige muito esforço – por isso, prefere a própria companhia.
“Quando a gente não sabe nomear aquilo que a gente é, os comportamentos que tem e as coisas que faz, é difícil conduzir a vida. Porque você não se identifica”, reflete ele, que hoje advoga em defesa de pessoas autistas.
Quem convive com o quadro muitas vezes apresenta crises sensoriais, como o meltdown (um excesso de raiva) e o shutdown (que provoca isolamento e uma espécie de paralisia). Ambas as situações podem ser causadas pelo excesso de estímulos auditivos, luminosos ou estresse. Descobrir o autismo pode ajudar a compreender e lidar com situações como essas, por exemplo. “Fica mais fácil entender a importância de ‘se colocar’, no sentido de dizer: ‘Olha, eu preciso ficar aqui no meu cantinho hoje, estou mais cansado’”, analisa o psiquiatra Alexandre Valverde.
Segundo o médico, é um alívio poder fazer isso em uma sociedade que exige desempenho social, presença e felicidade o tempo inteiro. Valverde, de 45 anos, descobriu que fazia parte do espectro aos 42.
Ainda segundo Abrahão, descobrir o autismo permitiu conhecer pessoas que vivem situações semelhantes e encontrar uma literatura sobre o tema que ajuda a se entender melhor.
Mas ainda há muitas lacunas a respeito do transtorno do espectro autista (TEA). Não se sabe, por exemplo, qual é a causa exata por trás do quadro. Por essa razão, ele é considerado multifatorial. Tanto fatores genéticos quanto ambientais podem estar envolvidos na origem da condição. Vale destacar que não se trata de uma doença e, por isso, não se fala em cura – na maioria das vezes, o que se trata são as comorbidades, como transtorno de ansiedade ou TDAH.
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Rotina adaptada contribui para o diagnóstico tardio
Muitas vezes, os sintomas do autismo são sutis e, com o tempo, os indivíduos aprendem a camuflá-los – o que os especialistas chamam de “masking” (ou “mascaramento”, em livre tradução). “Adultos e idosos são exímios mascaradores do próprio comportamento autístico”, comenta Valverde. É comum, por exemplo, falar sozinho e repetir finais de palavras ou frases, a chamada ecocalia. “Às vezes, a pessoa fica disfarçando isso para si e para os outros”, nota o psiquiatra.
Por conta da camuflagem, os sinais do autismo não são tão claros na velhice. Daí a importância de olhar o histórico de vida desses indivíduos: “São pessoas que têm um ou dois amigos e não conseguem se motivar para conhecer pessoas novas. Elas acabam cristalizando comportamentos metódicos”, descreve Valverde.
No caso de Abrahão, outro fator contribuiu para o autismo ser encoberto por muito tempo: ele tem altas habilidades, ou seja, apresenta um desempenho excepcional em algumas áreas do conhecimento.

Percepção do envelhecimento também atrapalha
Outras pistas do autismo são isolamento social, interesses específicos, dificuldade em interpretar expressões e rotinas rígidas. Acontece que essas características são muito atribuídas às pessoas com mais de 60 anos – impondo desafios extras para o diagnóstico na terceira idade.
Se estivermos falando de mulheres, a situação é mais complexa ainda, já que há sintomas muito atrelados a traços de personalidade feminina. Por exemplo: pessoas autistas tendem a apresentar dificuldade de olhar nos olhos e hipersensibilidade sensorial; não gostam de ser tocadas ou usar roupas que ‘pinicam’; se incomodam de ter as mãos sujas ou de sofrer interferência naquilo que estão fazendo; e são emotivas, então choram com facilidade. “Esse tipo de pensamento invisibilizou o autismo de muitas mulheres”, comenta Valverde, ressaltando que essa subnotificação é uma realidade desde a infância.
Embora se conheça cada vez mais sobre os possíveis sinais de autismo, é essencial ressaltar que somente uma equipe multidisciplinar pode fazer uma avaliação e confirmar o TEA.
Solitude ameaça a qualidade de vida de idosos autistas
Apesar de preferir a própria companhia durante grande parte da vida, o autista pode enfrentar dificuldades ao ficar sozinho na terceira idade. “Há um aspecto que a gente vê muito nessas pessoas: a necessidade de ter alguém como suporte. Às vezes, pode ser no sentido financeiro. Ou para acompanhar à padaria, e dar coragem para falar com a pessoa do balcão”, descreve Valverde.
Acontece que a solitude é naturalmente mais comum na velhice, devido a questões como perda de amigos e familiares, diminuição do poder aquisitivo e uma maior dificuldade de sair de casa – o que eleva o risco de doenças mentais. Segundo dados de 2019 do IBGE, a depressão atinge 13,2% das pessoas entre 60 e 64 anos, percentual superior ao registrado entre jovens de 18 a 29 anos (10,2%).
Então, se o idoso for autista, a saúde mental inspira ainda mais preocupações. “Vai ter um isolamento social potencialmente maior [entre eles]. Para essa pessoa criar uma rede saudável e produtiva, é muito mais difícil. Exige um esforço maior, é muito mais complicado”, ressalta Ivan Aprahamian, geriatra e psiquiatra. As consequências podem ser um aumento na prevalência de depressão, ansiedade, transtornos obsessivos e até um maior risco de suicídio, segundo o médico.
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O Brasil está preparado para lidar com idosos autistas?
Segundo o Censo de 2022, a expectativa é de que, em 2060, tenhamos 58,2 milhões de brasileiros na terceira idade – cerca de 25% da população. Porém o País não conta com um geriatra para cada mil idosos, como prega a Organização Mundial da Saúde (OMS) – a proporção é de um para 12 mil.
Nesse cenário, colocar o autismo em perspectiva só aumenta a apreensão. Ao focar em profissionais especializados na atenção à pessoa idosa e com formação técnica relacionada à neurodivergência, “estamos falando de um recorte ainda menor”, pontua Thais Lima-Silva, gerontóloga e doutora em Neurologia pela USP.
É válido lembrar que há três níveis de TEA, dependendo do grau de apoio que o indivíduo necessita. No nível 1, a pessoa precisa de suporte, mas leva uma vida livre e independente; no nível 2, demanda suporte substancial; e no nível 3 requer suporte muito substancial, com supervisão 24 horas ao dia. Isso é definido no momento da avaliação, mas pode mudar ao longo da vida.
“Questões como independência, moradia, emprego e participação na comunidade assumem uma importância ainda maior durante o processo de envelhecimento, exigindo estratégias de apoio individualizadas e programas de intervenção específicos para garantir uma transição bem-sucedida e uma qualidade de vida satisfatória”, analisa Thais.
Outro ponto importante é promover uma acessibilidade que vá além das questões físicas, frisa Aprahamian. Ou seja, é preciso promover ambientes com áreas de descanso para dar apoio em momento de sobrecarga sensorial, além de priorizar a comunicação visual e diminuir ruídos e luzes piscantes.
Em caso de suspeita de autismo, o médico indica visitar um clínico geral ou geriatra. Esses profissionais podem fazer o encaminhamento para um psiquiatra, neuropsicólogo ou psicólogo especialista em autismo. É possível que seja necessário fazer uma bateria de exames. “Quando você está na terceira idade, há uma infinidade de possibilidades diagnósticas, diferente do que ocorre na infância”, explica.
No Sistema Único de Saúde (SUS), é preciso buscar os Centros Especializados de Reabilitação (CER), os Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) ou qualquer unidade básica de saúde.