O poder público não tem conseguido controlar os incêndios pelo Brasil e o problema fica mais desafiador a cada ano. Isso porque as mudanças climáticas e a degradação ambiental pioram o espalhamento do fogo, ao tornar as chamas mais rápidas e aumentar o alcance dos focos. Ou seja: as queimadas deixam o planeta mais quente e, por outro lado, o aquecimento global faz com que os incêndios sejam piores.
A temporada de fogo bateu recordes no Brasil no ano passado. Foram registrados 278.229 focos no País, o pior número em 14 anos e alta de 46% em relação a 2023, segundo dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), órgão do Ministério de Ciência e Tecnologia. O Ministério do Meio Ambiente diz agora ter aumentado em 25% o total de brigadistas.

O cenário mais crítico para incêndios florestais extremos não é apenas nacional, mas global, e é intensificado pelas mudanças climáticas e fenômenos como o El Niño. Em janeiro, queimadas de grandes proporções devastaram bairros residenciais de Los Angeles, na Califórnia, em pleno inverno.
Entre março de 2023 e fevereiro do ano passado, uma área aproximada à da Índia queimou no planeta, segundo o estudo global State of Wildfires 2023-2024, publicado pela revista científica europeia Copernicus Publications.
Eventos extremos de fogo também castigaram Canadá, Grécia, a Amazônia Ocidental e partes do norte da América do Sul, causando ainda centenas de mortes no Havaí e no Chile.
Na Amazônia, conclui-se que o clima esteve de 20 a 28 vezes mais favorável a incêndios do que nos anos anteriores, e a área queimada no sudoeste do bioma foi 50% maior por conta da crise climática.
O bioma foi o que concentrou o maior número de focos no País, mas Cerrado, Pantanal e Mata Atlântica também tiveram queimadas significativas em 2024. Áreas de floresta que não costumavam pegar fogo agora estão no topo do ranking. E outras que já queimavam passam por incêndios cada vez mais devastadores.
Veja cinco razões por trás desse cenário mais problemático:
1) Fogo está mais difícil de controlar
Para a pesquisadora do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden) Liana Anderson, mudanças climáticas, ambientais e até sociais - relativas ao uso criminoso do fogo - têm feito com que ecossistemas se incendeiem mais facilmente.
“Não tinha essa preocupação (com o fogo se espalhar pela floresta). E agora, no manejo, vira e mexe o fogo escapa”, afirma.
De forma geral, essa maior flamabilidade tem a ver com a alteração no padrão de chuvas, que deixa a vegetação mais seca em diferentes biomas, e com o aumento das temperaturas devido à mudança climática. Isso favorece a propagação dos incêndios e forma o que especialistas chamam de eventos ou desastres compostos, em que o fogo está associado a secas extremas e ondas de calor.
Com isso, produtores rurais e populações tradicionais que sempre utilizaram o fogo para limpar o roçado, por exemplo, passaram a perder o controle. No caso das florestas, a pesquisadora aponta que antes a umidade continha o avanço das chamas, mas isso mudou.
Além dos casos de ignição acidental, é preciso considerar os incêndios criminosos. “É um ponto crítico, um grau de flamabilidade em que alguém com um fósforo pode representar ameaça para toda uma região”, diz Liana.
2) Fogo está mais quente e mais rápido
Além da facilidade com que os incêndios têm se espalhado, a característica do fogo também mudou. Segundo Liana, ele está mais quente e rápido devido à secura da vegetação, que atua como combustível, e causa impactos mais drásticos.
“Isso é bastante dramático para o componente do combate. São situações novas e mais perigosas do ponto de vista de risco à vida humana, de quem está na linha de frente”, afirma a pesquisadora do Cemaden.

Em relação ao Pantanal, o tenente coronel do Corpo de Bombeiros Militar de Mato Grosso do Sul, Leonardo Rodrigues Congro, costuma descrever a mudança na dinâmica dos incêndios no Pantanal como um “fogo 3D”.
Se antes ele só corria pela vegetação mais rasteira, agora alcança a copa das árvores, como uma mortalidade mais elevada de animais e plantas no bioma.
3) Período de risco de fogo está maior
Em 2024, o Brasil enfrentou a maior seca dos últimos 70 anos. As estiagens mais prolongadas aumentam o tempo em que há risco de incêndios nos biomas.
No Cerrado, por exemplo, a professora de Ecologia da Universidade de Brasília (UnB) Isabel Schmidt explica que a estação chuvosa se deslocou nas últimas décadas, passando a iniciar 30 dias mais tarde. “Está começando a chover menos no Cerrado, e as chuvas estão ficando mais concentradas”, afirma.
No início de setembro, era comum que as primeiras chuvas começassem a cair e que as populações tradicionais inaugurassem as queimas pré-plantio. Hoje, a estação úmida pode chegar só em meados de outubro, e esse “atraso” amplia a quantidade de dias com risco muito alto de fogo no bioma, em que qualquer ignição pode causar um grande incêndio.
4) Florestas estão queimando mais
Em 2024, mais de 30,8 milhões de hectares queimaram no País, segundo os dados da plataforma Monitor do Fogo do MapBiomas. A área queimada foi 79% maior do que em 2023 e é maior do que o território da Itália.
Não é apenas a extensão que preocupa a coordenadora do MapBiomas Fogo, Ane Alencar. Os dados da ferramenta mostram que, a cada ano, grande parte da área queimada nacionalmente já era de vegetação nativa, mas consistia geralmente em campos mais abertos, de cobertura vegetal savânica (com gramíneas, arbustos e árvores esparsas), característica do Cerrado e de alguns trechos do Pantanal.
No ano passado, a maior parte das áreas afetadas (14 milhões de hectares, o equivalente a 45,5% do total) eram de floresta, sendo a Amazônia o bioma mais atingido pelo fogo em 2024.
Segundo Ane, o fato é alarmante pela vulnerabilidade crescente desses ecossistemas ao fogo e pela recuperação mais lenta das florestas, que não são adaptadas a incêndios. “A floresta atingiu um ponto em que ela não consegue mais ter barreira para o fogo se espalhar”, diz.
Liana Anderson, do Cemaden, explica quais fatores tem causado essa maior “abertura " ao fogo:
- desmatamento: apesar da redução da retirada da cobertura vegetal em biomas como Amazônia e Cerrado, ele ainda é um dos principais vetores da penetração do fogo. Em primeiro lugar, o fogo é usado para “limpar” áreas desmatadas, seja no mesmo ano ou nos seguintes ao desmate, o que gera uma fonte de ignição. Em segundo, o desmatamento cria uma nova área de borda da floresta, que fica mais recortada à medida em que a destruição da floresta avança. Isso significa um perímetro maior do bioma em contato com áreas agrícolas e de pastagem e, portanto, mais exposto ao uso do fogo.
- efeito de borda cria “cinturão flamável”: as bordas são muito mais secas do que o interior da floresta. Muitas plantas não resistem à alteração do microclima (por estarem mais expostas ao vento e à radiação solar) e morrem, gerando um número grande de árvores mortas e galhos secos, que se convertem em material combustível para o fogo. “Essa borda vira um cinturão muito mais flamável. Quando se coloca fogo na pastagem, vai bater naquela borda de floresta e a porta está aberta”, continua Liana.
- degradação devido ao clima, a incêndios e à atividade madeireira: as secas prolongadas e o aumento das temperaturas enfraquecem e matam árvores na floresta, alterando a estrutura da vegetação. Árvores maiores, que formam o “dossel” da floresta, são as que mais sofrem estresse térmico: ele leva as folhas a caírem e o tronco a morrer e secar, aumentando o material combustível no solo. Outro motor da degradação é a exploração madeireira: a retirar árvores grandes do meio da floresta simula um efeito de borda pelo aumento da incidência solar, que altera o microclima. Com isso, o fogo encontra ambiente propício para se espalhar, queimando uma extensão maior.
5) Áreas que já queimaram ficam mais suscetíveis a queimar de novo
Florestas e outros tipos de vegetação queimadas perdem, em grande parte, a capacidade de reter umidade e têm mais material combustível no solo para queimar, uma combinação perfeita para que o fogo se espalhe. Isso aumenta a probabilidade de que áreas que já pegaram fogo sejam atingidas novamente.
Estudos mostram que, mesmo os biomas que preveem ocorrências naturais de fogo, como o Cerrado e o Pantanal, podem ter dificuldade de se recuperar com a maior recorrência e intensidade dos incêndios.
Cerca de 65% da área afetada pelo fogo no País de 1985 a 2023 foi queimada mais de uma vez, sendo o Cerrado o bioma com a maior quantidade de queima recorrente, segundo o Mapbiomas Fogo. Ao longo de quase quatro décadas, foram 199 milhões de hectares queimados pelo menos uma vez no Brasil, (23% do território).
O que esperar em 2025?
Os especialistas ouvidos pelo Estadão avaliam que, em 2025, as condições ambientais e climáticas devem favorecer novamente uma temporada de incêndios intensa.
“Tem de se preparar para o pior, porque toda condição está aí e é bastante clara. Se não controlar os pontos de ignição, mais uma vez terá todos os problemas”, diz Liana Anderson, do Cemaden.
O órgão atualiza a cada mês a previsão da probabilidade de fogo para o trimestre seguinte no território nacional e nas áreas protegidas da América do Sul, identificando municípios e unidades de conservação onde há mais risco de incêndios. Isso ajuda o poder público a se orientar sobre onde alocar recursos e intensificar ações de prevenção.
No momento, o governo federal projeta uma situação mais crítica para o Pantanal e anunciou retomada da sala de situação para se preparar para potenciais incêndios neste ano, além de outras medidas, como contratação de brigadistas e um planejamento que define os períodos de maior risco para cada região.
“Em grande parte dos casos, o fogo é iniciado por alguém. E essa pode ser a boa notícia, porque quer dizer que tem como controlar. Aí entram as políticas públicas, o comando e controle, e a conscientização”, afirma Ane Alencar, do MapBiomas.